Sábado o Filipe me telefonou à tarde, me contando sobre um programa imperdível de arte: O Enarte. Encontro de Arte de Belém. Era de graça, mas tinha que ir lá buscar as entradas, e ele disse que já tinha todas as entradas que precisávamos. Então selou moleque, vamo lá.
O Filipe avisou que ia começar às 16h. Quando deu mais ou menos 15h ele telefonou e disse: “Cara a gente precisa sair daqui 15:30 no máximo, tu podes tomar banho aqui em casa se quiser!”. Como eu disse, esse telefonema foi mais ou menos às 15h. Mas como o Olimpo conspira contra mim, o relógio de parede daqui de casa estava parado, e estava marcando 14h30. Então beleza, falei pro Vitor que eu ia sair e tal, e voltei pro computador. Vários minutos depois o Vitor diz: “Pedro? Tu não ias lá no Theatro da Paz 16h? Já é quase 15:30″.
Corre negada! Tomei banho em tempo recorde, joguei uma roupa na mochila, cubo mágico, e o All-Star de guerra. A distância entre a casa do Filipe e a minha é de 1,5km segundo o Google Maps, geralmente quando eu vou lá é de bicicleta. Então em algum dia eu peguei a bike, fui lá, e acabei voltando de carona. A bicicleta ficou lá.
Farelo papai, tive que partir andando pra casa desse indivíduo. O Google Maps disse que uma pessoa andando faz esse trajeto em 19 minutos. Acho que o Google se equivocou, porque consegui fazer em 18 minutos, e eu estava praticamente correndo. Perdôo o Google porque eu sou ultra-nerd-pagapau-fã do Google ele não levou em consideração uma subida ferrada que tem no caminho. (Nada importante para a história, mas no caminho eu vi um cara provavelmente bêbado jogado na calçada, sem parar de andar e receioso eu tirei uma foto com o celular)
Chegando lá o Filipe: “No mínimo tu estás pronto né? Huashuashuashuas”. Só se fosse pronto pra ir pra praia. “Huashuashuashuas. Rapidola Filipe, só preciso retocar a maquiagem que a gente vaza”. Meti a calça e o All-Star e pronto.
No caminho da casa dele até a parada (pouca coisa, uns 150 metros), eu perguntei: “Qual é o nosso itinerário mesmo?”. “Cara, vai ser: Teatro da Paz* – Teatro Waldemar Henrique – Teatro da Paz – Teatro Waldemar Henrique”.
Quando o Filipe disse o primeiro “Teatro da Paz”, uma mulher olhou pra gente bruscamente. Eu pensei comigo “Essa mulher também tá indo pra lá”. Então ela diz: “Caramba vai chover né? Se tu fizer risquinhos na areia vai chover. Tem que fazer dois sóis bem redondos =D”. Ri muito!! Superstição isso? Eu interpretei do meu jeito. Fique à vontade também para interpretar a afirmação da louca.
Vocês sabiam que em teatros eles fecham as portas depois de alguns minutos, e ninguém mais entra? Poisé, eu não sabia. Chegamos faltando poucos minutos para fechar as portas.
Uma hora de Vivaldi, uma hora de uma peça de teatro. Quando acabou eu perguntei: “E aí Filipe? Onde fica o teatro Waldemar Henrique?”. Eu tava jurando que a gente ia ter que pegar ônibus e tudo. Mas o Teatro Waldemar Henrique é na própria praça da República.
Vocês já entraram no Teatro Waldemar Henrique? À primeira vista o lugar me pareceu uma caverna. Era pequeno, tinha pouca iluminação, parecia um ambiente medieval. Me lembrou da época que eu jogava RPG (Abraço pro Diego que narrava, ele descrevia esses ambientes T.WaldemarHenriquíescos).
Lá era um coral. Engraçado, eu nunca entendo uma palavra dessas músicas cantadas por coral! Eu sempre me pergunto “É latim ou português que eles estão cantando?”. Se eu não me engano o nome desse estilo é Canto Lírico ou Canto Gregoriano. E eles forçam tanto a voz que eu fico meio tenso, tenho a impressão de que eles vão falhar a qualquer momento! Tenho a impressão de que não vão conseguir alcançar a próxima nota.
Acabou mais ou menos às 19h, e a próxima apresentação que seria no Teatro da Paz ia começar às 20h. “Égua moleque, então bora procurar alguma coisa pra comer, que eu to morrendo de fome!”.
Quando a gente tava andando na Praça da República eu vi a seguinte cena:
Estava tendo um encontro de emos lá na Praça. Tinha uns 50 deles. Então eu vejo uma menina de preto, toda caracterizada de emo começar a correr. Atrás dela corre uma mulher gorda com roupa colorida. A princípio eu achei que fosse só uma brincadeira dos emos, até que: A mulher consegue alcançar a ema e agarra-a pelo cabelo. Quando a menina cai no chão, a mulher começa a bater no rosto e na cabeça. Primeiro eu pensei que eram tapas, mas não estava fazendo um barulho estalado, era um barulho seco, era soco mesmo, principalmente na cabeça. Depois de muita porrada na garota, um rapaz de roupa social corre, afasta a mulher e abraça a menina.
O rapaz sai abraçado com a menina, e a mulher vai ao lado agarrada ao cabelo da menina e apontando pro rosto dela, enquanto isso uma porrada no rosto aqui e acolá. Entram em um carro e vão embora.
Enquanto estavam correndo eu pensei que era apenas brincadeira entre duas emas. Quando começou a surra eu pensei que uma tinha roubado o namorado da outra ou coisa parecida. Mas quando os três saíram andando juntos eu não entendi nada. O cara não impedia a louca de continuar surrando a menina! Fiquei congelado alguns segundos, e então comentei alguma coisa com o Filipe, aí ele disse: “Acho que essa é a mãe dela”. Foi quando eu olhei melhor e percebi, eram dois adultos e uma menina! A interpretação mais provável é: Uma escutadora de Fresno pergunta pra mãe se ela pode ir ao encontro de emos, encontrar com os seus migUxXxUxXxos homossexuais. A mãe proibiu. Então ela se trancou no quarto a chorar e a ouvir Tokio Hotel. Contou às amigas que tinha a vida mais infeliz do mundo, e que ia fugir de casa pra ir pro encontro. Deu uma de revoltadinha, e foi. A mãe quandou soube foi educadamente buscar sua filha.
Achamos um daqueles carrinhos de lanche. Na hora de pagar foi uma confusão: A mulher não conseguiu entender a conta! Somando os dois lanches dava 12 reais. Eu dei meu dinheiro, e pedi que ela tirasse 6. O Filipe entregou o dinheiro dele e pediu pra ela tirar 6. A mulher não entendeu quanto era nossa divída, e que transação a gente tava querendo fazer. No final ela chutou o balde e disse: “Me dá teu dinheiro, quanto eu tenho que te dar de troco? Toma. E pra ti quanto é? Toma.”. A gente poderia facilmente ter tirado proveito da situação.
Depois de comer, fomos pro Teatro da Paz: Vimos uma apresentação incrível! Eram músicas de um tal de Carles Margarit, músico espanhol famoso, tem vídeos dele no Youtube. E eles chamaram o próprio Carles Margarit pra ser o regente! A música do cara era muito louca! Pra mim era um misto de Rock Progressivo com Jazz, e era meio psicodélico! Em alguns pontos lembrava muito o Live at Pompeii do Pink Floyd. Nas palavras do próprio Carles Margarit, era Jazz com música flamenca.
Geralmente o regente vai todo engomadinho: Terno, smoking, ou alguma coisa assim. Mas o Carles Margarit foi com uma roupa esporte, calça jeans e tal. Ele deve ter pensado: “Pô, é uma apresentação numa cidade subdesenvolvida de um país subdesenvolvido. Eu vou com essa roupa que eu to mesmo”.
Eu e o Filipe temos uma técnica jedi pra bater palmas bastante alto, sem precisar bater forte ou se esforçar. Não é difícil, mas tem pessoas que não sabem. Em um dos aplausos nós estávamos batendo palmas bem forte. Então uma senhora falou pro Filipe: “Não dói as suas mãos não?”. “Dói nada! Eu tenho uma técnica pra bater bem alto sem doer. É só você fazer com a mão esquerda uma…”. A senhora interrompe: “Ok, Ok. Mas não precisa fazer não tá? Dói meus ouvidos”. Hahusahsuahsuahsuahsuahsuahsuahsua! Ri muito!!
No final da apresentação tocaram Uirapuru e Pout-porri de carimbó. Nesse mesmo sábado era a 4ª apresentação da música Uirapuru, juro! O pout-porri de carimbó foi muito doido! Muito doido mesmo! Fechou com chave de ouro a apresentação! Eu e o Filipe no meio dos aplausos começamos a bater palmas no ritmo de BIS. Alguns gatos pingados seguiram também.
Não sei se o Carles Margarit ouviu. Só sei que ele voltou pro palco e disse que ia tocar um bis da última música. Ele se acha hein? Eu queria era o pout-porri do carimbó!
Depois fomos ao Teatro Waldemar Henrique de novo. Onde teve a Mostra de Intérpretes de MPB. Foi um Ídolos sem aqueles jurados chatos da SBT comentando.
Nem deu pra assistir tudo. Já tava tarde, e estávamos cansados pra caramba. Achei interessante que mesmo escutando 6 horas de música, eu não estava saturado. Mas quando eu fico muitos minutos com fone de ouvido, meus ouvidos cansam. O dia foi cansativo, mas foi muito louco. Fiquei um tempo pensando na ema que levou uma surra. Apesar dela estar erradíssima, me deu pena dela. Huashuashaushasuhasu.